i está um homem inteligente - disse Lannister, e
atirou a moeda a rodopiar pela sala fora. O cavaleiro livre a
apanhou no ar. - E, além disso, ligeiro de movimentos - o
anão virou--se para Masha Heddle: - Confio que seja capaz de
arranjar comida?
- Tudo o que desejar, senhor, tudo e mais alguma coisa -
prometeu a estalajadeira. E que ele sufoque com a comida,
pensou Catelyn, mas foi Bran quem ela viu sufocar,
afogando-se no próprio sangue.
Lannister lançou um olhar de relance pelas mesas mais
próximas.
- Meus homens comerão seja o que for que esteja servindo a
essa gente. Porções duplas, porque tivemos um longo dia de
viagem. Quero uma ave assada... galinha, pato, pombo, não
importa. E mande-me um jarro do seu melhor vinho. Yoren,
janta comigo?
- Sim, senhor, janto - respondeu o irmão negro.
O anão nem sequer olhara de relance para a extremidade mais
distante da sala, e Catelyn pensava em como se sentia grata
pelos bancos apinhados que havia entre eles, quando subita-
mente Marillion deu um salto e pôs-se em pé.
- Meu senhor de Lannister! - ele gritou. - Ficarei feliz em
entretê-lo enquanto se alimenta, Deixe-me cantar o lai4 sobre
a grande vitória de vosso pai em Porto Real.
- Nada me arruinaria mais o jantar - o anão disse secamente.
Seus olhos desiguais avaliaram brevemente o cantor,
começaram a se afastar... e deram com Catelyn. Olhou-a por
um momento, confuso. Ela virou o rosto, mas era tarde
demais. O anão sorria. - Senhora Stark, mas que prazer
inesperado - ele disse. - Lamentei não tê-la encontrado em
Winterfell.
Marillion a olhou de boca aberta, com a confusão cedendo
lugar ao desgosto enquanto Catelyn se punha em pé, Ouviu
Sor Rodrik praguejar. Se ao menos o homem se tivesse
demorado na Muralha, pensou ela, se ao menos...
- Senhora... Stark? - disse Masha Heddle, sem compreender.
- Ainda era Catelyn Tully da última vez que pernoitei aqui -
ela disse à estalajadeira. Ouvia os murmúrios, sentia os olhos
postos em si. Lançou um olhar pela sala, olhando para o rosto
dos cavaleiros e as espadas juramentadas, e inspirou
profundamente para abrandar o frenético bater do coração.
Atrever-se-ia a correr o risco? Não havia tempo para pensar
bem, apenas o momento e o som de sua voz a ressoar em seus
ouvidos.
- O senhor aí, no canto - disse para um homem mais velho em
que não reparara até agora. - É o morcego negro de
Harrenhal que vejo bordado em seu manto, senhor?
O homem ergueu-se.
- É sim, senhora.

4 Poema narrativo lírico tocado em harpa ou viola. (N. T.)
- E é a Senhora Whent uma verdadeira e honesta amiga de
meu pai, Lorde Hoster Tully de Correrrio?
- É, sim - o homem respondeu resolutamente.
Sor Rodrik ergueu-se em silêncio e desapertou a espada em
sua bainha. O anão piscava, sem expressão, com os olhos
desiguais repletos de perplexidade.
- O garanhão vermelho foi sempre uma visão bem-vinda em
Correrrio - disse Catelyn ao trio perto do fogo. - Meu pai conta
Jonos Bracken entre os seus mais antigos e leais vassalos.
Os três homens de armas trocaram olhares incertos,
- Nosso senhor sente-se honrado pela sua confiança - disse um
deles, hesitantemente.
- Invejo ao seu pai todos esses bons amigos - observou
Lannister -, mas não compreendo bem o objetivo disto,
Senhora Stark.
Ela o ignorou, virando-se para o grande grupo vestido de azul
e cinza. Residia neles o fulcro da questão; eram mais de vinte.
- Também conheço seu símbolo: as torres gêmeas de Frey.
Como passa vosso bom senhor, senhores?
O capitão pôs-se em pé.
- Lorde Walder está bem, senhora. Planeja tomar uma nova
esposa no nonagésimo dia do seu nome, e pediu ao senhor seu
pai para honrar o casamento com sua presença.
Tyrion Lannister soltou um risinho abafado. Foi nesse
momento que Catelyn soube que o tinha na mão.
- Este homem chegou como convidado a minha casa e ali
conspirou para matar meu filho, um rapaz de sete anos -
proclamou para toda a sala, apontando. Sor Rodrik deslocou-
se para o seu lado, de espada na mão. - Em nome do Rei
Robert e dos bons senhores que servem, solicito-lhes que o
capturem e me ajudem a devolvê-lo a Winterfell, onde
esperará a justiça do rei.
Não saberia dizer o que lhe deu maior satisfação: se o som de
uma dúzia de espadas a serem empunhadas como uma só, ou
se a expressão no rosto de Tyrion Lannister.

Sansa

Sansa chegou ao torneio da Mão, com a Septã Mordane e
Jeyne Poole, numa liteira com cortinas de uma seda amarela
tão fina que se conseguia ver através delas. Transformavam o
mundo inteiro em ouro. Para lá das muralhas da cidade, tinha
sido erguida uma centena de pavilhões junto ao rio, e a plebe
chegou aos milhares para assistir aos jogos. O esplendor de
tudo aquilo tirou o fôlego de Sansa; as armaduras brilhantes,
os grandes cavalos ornados com prata e ouro, os gritos da
multidão, os estandartes esvoaçando ao vento... e os próprios
cavaleiros, acima de tudo os cavaleiros.
- É melhor do que nas canções - ela sussurrou quando
encontraram os lugares que o pai lhe prometera, entre os
grandes senhores e senhoras.
San